Terra natal, Anna Akhmátova

10/01/2014

 

Não há no mundo seres tão sem lágrimas

Nem tão simples e orgulhosos quanto nós

1921

 

 

Não a levamos no peito qual secreto escapulário

nem a cantamos em chorosos versos

Nossos amargos sonhos ela não chega a perturbar

nem nos parece ser o paraíso prometido.

Não a convertemos, bem no fundo da alma,

em algo que se possa comprar ou vender

Nem mesmo quando enferma, no desastre ou emudecida,

Chegamos a nos lembrar dela.

Sim, para nós ela não passa de lama nas galochas,

sim, para nós ela não passa de poeira nos dentes.

E a amassamos, moemos, trituramos,

como se não nos misturássemos a seu pó.

Mas é nela que nos deitaremos, nela nos converteremos,

e é por isso que tão livremente a chamamos “nossa”.

 

 

1961

Leningrado

No hospital perto do porto

 

 

Anna Akhmátova, Poesia 1912 1964,  editora L&PM, pg. 141, 1991

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No lugar de um prefácio, Anna Akhmátova

10/01/2014

 

“Nos anos terríveis da Iejovshtchina, passei dezessete meses fazendo fila diante das prisões de Leningrado. Um dia alguém me “reconheceu”. Aí, uma mulher de lábios lívidos que, naturalmente, jamais ouvira falar em meu nome, saiu daquele torpor em que sempre ficávamos e, falando pertinho do meu ouvido (ali todas nós só falávamos sussurrando), me perguntou:

– E isso, a senhora pode descrever?

E eu respondi:

-Posso.

Aí, uma coisa parecida com um sorriso, surgiu naquilo que, um dia, tinha sido o seu rosto.”

Leningrado 1o/4/1957

 

Anna Akhmátova, Poesia 1912 1964,  editora L&PM, pg. 111, 1991

Poema um, Gonzaga Leão

08/01/2014

 

Se você deseja

com seu coração

ou se é com seu sonho

– sua solidão –

o que mais almeja,

se é com seu corpo

e sua peleja

que realmente quer

fazer sua casa,

não importa a forma

que ela possa ter,

pois a casa é

para ser sentida

para ser vivida

para ser amada

e ser possuída

não para se ver.

(…)

Mas se você quer

se deseja dar-se

por completo à casa

dê primeiramente

todos os seus pertences:

dê sua camisa

quando mais suada

dê os seus sapatos

quando mais usados

e a gravata

quando mais amarrotada

e o seu terno quando

ele mais surrado,

pois nós nos doamos

se nós nos gastamos

quando as coisas nossas

do cotidiano

junto a nós se gastam.

(…)

Mas indispensável

é que a casa tenha

o que nos agrada

o que nos convém

e o que nos convenha

tudo que se tem

ou que se obtenha

para que essa casa

(e essa casa é)

seja fogo e lenha.

(…)

De tal forma que

quando a gente entre

ao ranger a porta

ranjam nossos dentes

e sejamos ásperos

– pois amor não basta –

para que bem firme

nossa casa se erga

e melhor se faça

mesmo que a fome

seja a argamassa

e suas janelas

não tenham cortinas

pois que as cortinas

são como mordaças.

(…)

E é o que sonhamos

e o que desejamos

nessa construção:

ser seu habitante

já no anteprojeto:

– pois da casa somos

a matéria-prima

o operário humilde

e seu arquiteto.

Casa Somente Canto, Casa Somente Palavra, pgs 09 – 39, Editora Escrituras, 1995

Sobre importâncias, Manoel de Barros

31/12/2013

Um fotógrafo-artista me disse uma vez: veja que pingo de sol no couro de um lagarto é para nós mais importante do que o sol inteiro no corpo do mar. Falou mais: que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem com barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós. Assim um passarinho nas mãos de uma criança é mais importante para ela do que a Cordilheira dos Andes. Que um osso é mais importante para o cachorro do que uma pedra de diamante. E um dente de macaco da era terciária é mais importante para os arqueólogos do que a Torre Eiffel (Veja que só um dente de macaco!). Que uma boneca de trapos que abre e fecha os olhinhos azuis nas mãos de uma criança é mais importante para ela do que o Empire State Building. Que o cu de uma formiga é mais importante para o poeta do que uma Usina Nuclear. Sem precisar medir o ânus da formiga. Que o canto das águas e das rãs nas pedras é mais importante para os músicos do que os ruídos dos motores da Fórmula! Há um desagero em mim de aceitar essas medidas. Porém não sei se isso é um defeito do olho ou da razão. Se é defeito da alma ou do corpo. Se fizerem algum exame mental em mim por tais julgamentos, vão encontrar que eu gosto mais de conversar sobre restos de comida com as moscas do que com homens doutos.

Memórias Inventadas, a segunda infância, editora Planeta, sem número de página indicado, 2006

Flores, Mario Bellatin

30/12/2013

 

Crisântemos      Uma mulher na Itália, depois de tentar durante muitos anos, com seu marido, a adoção de uma criança sul-americana, acabou atirando-a nos trilhos do trem. Ao ser questionada sobre as razões de sua conduta, afirmou que aquela adoção modificara demais a sua vida. O marido não havia conseguido suportar a nova situação, abandonando a casa definitivamente. A mulher tornou-se alcoólatra. Com graves problemas financeiros e uma frágil estabilidade mental, chegou à conclusão de que esse filho estava fadado à desgraça, acontecesse o que acontecesse. Antes de atirá-lo sob o trem em movimento, hesitou, pensando se não seria melhor devolvê-lo ao seu país de origem. Só de pensar nos trâmites que isso acarretaria não chegou a considerar duas vezes a possibilidade e ficou esperando, a quatro passos do filho, a passagem do trem expresso. Talvez nesse momento tenha sido possível vislumbrar, no fundo da paisagem, distante e envolto na bruma, um campo coberto de crisântemos. De qualquer forma, a presença intempestiva do trem obstruiu toda a visão.

Cosac Naify, pg. 24, 2009

Entre os dois gumes do amor, Alexandre Brito

28/12/2013

 

Entre os dois gumes do amor

Êxtase e agonia

Todas as estações em um dia

Todas as especiarias da ilusão

 

Entre os dois gumes do amor

As duas bandas da navalha

As suas e as minhas ciladas

Nossas sutis torturas

 

Entre os dois gumes do amor

Carne amálgama carne

A tarde animal arde

E se infinita entre os lençóis

 

Entre os dois gumes do amor

Cumplicidade feroz e silenciosa

O lodo e o ouro

A vida toda cruel e maravilhosa

 

Visagens, editora Arte Pau Brasil, sem número de página indicado, 1986

Primeiro amor – Samuel Beckett

27/12/2013

Eu conhecia mal as mulheres, naquela época. Ainda as conheço mal, aliás. Os homens também. Os animais também. O que conheço menos mal são as minhas dores. Penso nelas todas, todos os dias, é rápido, o pensamento vai tão depressa, mas elas não vêm todas do pensamento. Sim, há momentos, principalmente à tarde, em que me sinto sincretista, à maneira de Reinhold. Que equilíbrio. Aliás, conheço mal também minhas dores. Isso deve ser porque não sou apenas dor. Aí está a astúcia. Então me afasto até o espanto, até a admiração, como de um outro planeta. Raramente, mas é o bastante. Nada cretina, a vida. Ser apenas dor, como simplificaria as coisas! Ser todo-dolente! Mas isso seria concorrência, e desleal. Eu lhes contarei assim mesmo, um dia, se me lembrar, e tomara que consiga, minhas estranhas dores, em detalhes, e distinguindo-as bem, para maior clareza. Falarei das dores do entendimento, as do coração ou afetivas, as da alma (muito simpáticas, as da alma), e depois as do corpo, primeiro as internas ou ocultas, depois as da superfície, começando pelos cabelos e descendo metodicamente e sem pressa até os pés, abrigo dos calos, cãibras, joanetes, unhas encravadas, frieiras, pés-de-atleta e outras esquisitices. E àqueles que forem gentis o bastante para me escutar contarei na mesma ocasião, de acordo com um sistema cujo autor não me recordo, os instantes em que, sem estar drogado, nem bêbado, nem em êxtase, não se sente nada.

Cosac Naify, sem número de página indicado, 2004

Eugênia Grandet – Honoré de Balzac

26/12/2013

…Todo poder humano é uma mistura de paciência e de tempo. As criaturas poderosas querem – e velam. A vida do avarento é um constante exercício da potência humana colocada a serviço da personalidade. Ele só se apoia sobre dois sentimentos: o amor-próprio e o interesse; mas, como o interesse é de certo modo o amor-próprio sólido e bem-compreendido, a comprovação permanente de uma superioridade real, o amor-próprio e o interesse são duas partes de um mesmo todo, o egoísmo. Daí vem, talvez, a prodigiosa curiosidade que despertem os avarentos habilmente postos em cena. Cada indivíduo está ligado por um fio àquelas personagens que ofendem a todos os sentimentos humanos, resumindo-os todos. Onde está o homem sem desejo, e que desejo social se resolverá sem dinheiro?

Grandet tinha realmente alguma coisa, segundo a expressão de sua mulher. Havia nele, como em todos os avarentos, um persistente desejo de jogar uma partida com os outros homens, de ganhar-lhes legalmente os escudos. Lograr alguém não é praticar um ato de poder, atribuir-se perpetuamente o direito de desprezar aqueles que, fracos demais, deixam-se devorar neste mundo? Oh, quem terá compreendido bem o cordeiro pacificamente deitado aos pés de Deus, o mais tocante símbolo de todas as vítimas terrestres, o do futuro delas – enfim, a dor e a fraqueza glorificadas? Esse cordeiro, o avarento o deixa engordar, ceva-o, mata-o, assa-o, come-o e despreza-o. O alimento dos avaros se compõe de dinheiro e desdém…

Grandes Sucessos – Abril Cultural, pag. 106, 1981

Uma vaga lembrança, Hans Magnus Enzensberger

21/02/2013

Nos nossos debates, companheiros
me parece, às vezes
havermos esquecido algo.
Não é o inimigo.
Não é a linha. 
Não é a meta.
Não consta no Breve Curso.

Se nunca o tivéssemos sabido
não haveria luta.
Não me perguntem o que é.
Não sei como se chama.
Apenas sei que é
o mais importante
aquilo que esquecemos.

Eu falo dos que não falam (antologia), Editora Brasiliense, pag. 62,  1985

A garra do vento, Hans Magnus Enzensberger

21/02/2013

Algumas palavras
leves
como sementes de álamo

sobem
regiradas pelo vento
descem

difíceis de prender
vão longe
como sementes de álamo

algumas palavras
cavam a terra
mais tarde talvez

lancem uma sombra
joguem uma sombra estreita
talvez não

Eu falo dos que não falam (antologia), Editora Brasiliense, pag. 46,  1985